sábado, 19 de outubro de 2019

Na Indústria #1 – O que são os comitês de produção e como os animes são financiados

Descubra como os animes que tanto amamos são financiados.
Anime também é um negócio

O Japão é mundialmente famoso por produzir animação de qualidade, mas produzir animação de qualidade custa caro. Então de onde surge o dinheiro que financia a produção dos animes que tanto amamos?

Bem-vindos ao primeiro artigo da série Na Indústria, em que discutiremos vários aspectos relacionados à produção, distribuição e comercialização dos animes.

Até porque fazer anime é arte, mas também é um negócio. Vem com a gente!

Comitês de Produção: O que são? O que comem? Onde vivem?

A verdade é que a maioria esmagadora dos estúdios de animação japoneses não tem dinheiro para bancar os custos de produção e marketing de uma série inteira por conta própria. E, mesmo nos casos em que eles poderiam bancar tais custos, se a série não der o retorno esperado, teremos um estúdio falido e animadores desempregados com certeza.

É aí que entram os comitês de produção.

Comitês de produção são joint ventures (ou seja, empreendimentos cujos sócios são outras empresas) criadas com o propósito explícito de financiar uma animação específica.

Abaixo estão alguns tipos de empresas que se envolvem (ou já se envolveram) em comitês de produção:

  • Editoras de mangás (como a Shueisha)
  • Emissoras de TV (como a Tokyo TV)
  • Estúdios de anime (como a Toei)
  • Gravadoras de música (como a Japan Anime Music Lab)
  • Administradoras de fundos de investimento
  • Fabricantes de Brinquedos (como a Bandai)
  • Desenvolvedoras de jogos (a Bandai de novo)
  • Agências de Publicidade
  • Companhias de Comércio Internacional

Não existe uma regra fixa para determinar o tamanho de um comitê de produção. Há casos de comitês de somente 2 empresas, como também há casos de comitês de 10 empresas ou mais. Do mesmo modo, o fato de um comitê ter várias empresas envolvidas nele não quer dizer que estas empresas compartilham igualmente os riscos de produção de comercialização de um anime. Por exemplo: ter dez empresas num comitê de produção não necessariamente quer dizer que cada uma vai ter que contribuir com 10% por cento dos custos de produção e marketing de um anime – ou receber 10% dos dividendos relacionados ao mesmo.

Isso também significa que as empresas que investem mais dinheiro dentro de um comitê também arrecadam mais dividendos relacionados ao anime produzido.

Ainda que os estúdios de animação sejam peça central na produção de um anime, também há vários casos em que eles não participam dos comitês. Um exemplo disso é Samurai Flamenco, em que o estúdio responsável por sua produção, o Manglobe, não participou do comitê de produção do anime, apesar de ser o detentor de sua propriedade intelectual.

Samurai Flamenco

Do mesmo modo, é possível para um estúdio de animação ser peça-chave e até mesmo liderar um comitê de produção? A resposta é sim, mas poucos estúdios conseguem fazer isso.

Liderar um comitê de produção exige uma situação financeira extremamente sólida por parte do estúdio e um catálogo de obras que seja bastante rentável, e poucos estúdios se encaixam nesse critérios. Alguns exemplos de estúdios consagrados que já lideraram comitês de produção são a Toei Animation, Kyoto Animation, TMS, Pierrot e Sunrise.

No entanto, não é impossível para estúdios menores liderarem comitês de produção em circunstâncias especiais. Para ilustrar a situação temos o estúdio P.A. Works, que liderou o comitê de produção de Uchoten Kazoku.

Uchoten Kazoku

Como os comitês surgiram?

Por mais estranho que pareça, os comitês de produção não surgiram com os animes exibidos na TV.

Esse modelo foi usado pela primeira vez em animações produzidas para o cinema, mais notadamente em Akira e Nausicaä do Vale do Vento.

Akira tinha em seu comitê de produção empresas como Kodansha, Hakuhodo, MBS, Bandai, Sumitomo Corporation e Tokyo Movie. Já Nausicaä tinha a Hakuhodo e Takuma Shoten.

O modelo de comitês de produção seria utilizado para animações na TV pela primeira vez em 1992 na animação Musekinin Kanchō Tairā (que, por sua vez, é baseada na série de light novels Uchū Ichi no Musekinin Otoko) e seu comitê de produção era composto por empresas como VAP, King Records, Big West e Media Rings. A animação em si foi produzida pelo estúdio Tatsunoko Productions.

Outro ponto que contribuiu para a ascensão dos comitês de produção na época foi o crescimento do mercado de home video para animes no final dos anos 80 e início dos anos 90. Cada vez mais pessoas (em especial indivíduos adultos) compravam fitas VHS de animes, e isso possibilitou também aos estúdios ganhar dinheiro com as vendas das fitas, aumentando seu faturamento e atraindo mais investidores externos.

As vantagens…

Uma das principais vantagens desse modelo está no fato de que ele ajuda a mitigar os possíveis estragos que um prejuízo financeiro trazido uma produção malsucedida possa causar. Até porque, por melhor que uma animação seja, não há garantias de que ela trará bom retorno financeiro.

Outra vantagem desse modelo está no fato de que, ao fazer com que empresas de ramos diferentes juntem forças, cada uma delas foque naquilo que consegue fazer de melhor. Um estúdio de animação, por exemplo, pode se focar em produzir animação de qualidade sem ter que se preocupar em alocar recursos para cuidar do marketing da animação, por exemplo.

…e os problemas desse modelo

Ainda que as empresas envolvidas num comitê de produção possuam o interesse comum de fazer uma determinada animação ser rentável, a verdade é que, em vários outros aspectos, as empresas de um comitê podem possuir interesses conflitantes. Aliando isso ao fato de que nem sempre a contribuição financeira de cada membro do comitê é igual, então isso pode fazer com que certos aspectos de um anime acabem não recebendo o suporte financeiro adequado.

E uma das piores coisas que podem acontecer com um anime é quando os membros de um comitê demoram para chegar a um consenso sobre como a produção e o marketing de um anime devem proceder. Isso pode inclusive causar atrasos na produção dos episódios ou na produção de merchandising (sendo essa uma das principais fontes de renda trazidas por uma animação).

O que o futuro reserva para o modelo dos comitês de produção?

Embora os comitês de produção sejam o modelo dominante na indústria de animação japonesa, os estúdios de anime já buscam hoje alternativas.

Você deve se lembrar de quando o Estúdio TRIGGER financiou com sucesso via crowdfunding a animação de Little Witch Academia e, posteriormente, criou um perfil no Patreon, onde recebe por mês milhares de dólares oriundos de fãs do estúdio localizados mundo afora.

Além disso, também estamos vendo empresas ocidentais, como a Netflix e a Crunchyroll, entrando como membros nesses comitês e investindo grandes somas de dinheiro na produção de animes variados. Em troca, é claro, ganham a exclusividade dos direitos de exibição desses animes fora do Japão.

O modelo dos comitês de produção está longe de ser um sistema perfeito, mas vale ressaltar que foi esse sistema que viabilizou a maioria esmagadora dos animes que são adorados por milhões de pessoas mundo afora, e se trata de um modelo que ainda vai persistir por muitos anos.

O que você achou de toda essa informação? Deu para matar um pouco a curiosidade? Pois saiba que tem muito mais a caminho, fique ligado nos seus nerds de anime aqui no AniNerd!

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