quarta-feira, 21 de agosto de 2019

Um dia de luto: a tragédia da Kyoto Animation e seu impacto na indústria de anime

A KyoAni também é exemplo em direitos trabalhistas.

18 de julho de 2019 entrou para a história como um dia trágico para a indústria de animação japonesa, quando mais de 30 pessoas tiveram suas vidas ceifadas num incêndio de origem criminosa. As perdas são inestimáveis, mas qual é o impacto disso para o futuro do estúdio e na indústria em geral?

Um breve histórico da Kyoto Animation

Fundada em 1981 por Yoko Hatta (que anteriormente havia trabalhado no estúdio Mushi Productions) sob o nome de Kyoto Anime Studio, o estúdio era inicialmente composto por donas de casa com tempo livre que se juntaram, sob a liderança de Yoko, para prestar serviços para estúdios de animação, e isso marcou o início de algo que se tornaria marca registrada do estúdio: a grande presença feminina entre seus funcionários.

O negócio cresceu e, posteriormente, o marido de Yoko, Hideaki Hatta, entrou na empresa como presidente e desempenhou um papel fundamental na profissionalização do estúdio (por sinal, Hideaki atua como presidente da empresa até hoje), e foi nessa época que a Kyoto Anime Studio mudou seu nome para Kyoto Animation e deu os primeiros passos para se tornar o estúdio que conhecemos hoje.

Kyoto Animation nos seus primórdios

Com o passar do tempo, a Kyoto Animation (também conhecida como KyoAni) ganhou uma excelente reputação graças a qualidade dos serviços que prestava e, a partir da primeira metade dos anos 2000, passou também a adaptar e produzir suas próprias animações.

O primeiro anime feito pela KyoAni foi Full Metal Panic? Fumoffu, em 2003, que foi baseado na série de light novels de mesmo nome e servia de continuação para a adaptação de Full Metal Panic produzida no ano anterior pelo estúdio Gonzo.

Com o passar dos anos, a KyoAni se tornou famosa dentro e fora do Japão pela qualidade visual impressionante das animações que produzia e por sua competência em adaptar histórias de forte conteúdo emocional, e isso fez com que o estúdio conquistasse uma legião de fãs mundo afora.

Entendendo a indústria

Cena de Shirobako, que não é da KyoAni, mas explora o mundo da indústria de animação.

Para entender melhor o impacto da Kyoto Animation na indústria, primeiro é necessário compreender como animes são produzidos.

Produzir animação de qualidade é um processo caro e complexo; dependendo da série, um único episódio pode vir a custar milhões de reais! Por isso, a maior parte da animação que sai do Japão é produzida por organizações conhecidas como comitês de produção, que são joint ventures (ou seja, uma empresa que pertence a um grupo de outras empresas – vamos explorar mais esse assunto em artigos futuros) feitas especificamente para dar forma a um produto de entretenimento específico.

Entre os componentes típicos de um comitê de produção estão:

  • Editoras de Mangá
  • Emissoras de TV
  • Estúdios de Anime

Esse modelo, por um lado, possibilitou a existência de vários animes que se tornaram clássicos, com vários fãs mundo afora, mas em muitos casos, deixa os estúdios em uma posição desfavorável, já que eles muitas vezes eles não ganham royalties em cima dos animes que produzem e dependem, para sobreviver, de vendas de Blu-ray e DVDs e de contratos de prestação de serviços.

Como se trata também de um modelo em que as empresas participantes muitas vezes possuem interesses conflitantes, para mitigar os riscos, os prazos dados para a produção dos episódios de um anime costumam ser bastante apertados e o orçamento disponível por episódio, em muitos casos, é o menor possível.

A Kyoto Animation, no entanto, encontrou uma solução criativa para lidar com esse modelo.

Kyoto Animation: estrutura e organização

A Kyoto Animation sempre foi vista por muitas pessoas dentro da indústria de animação como sendo aquilo que os estúdios de animação japoneses deveriam almejar ser.

Antes do incêndio, a KyoAni contava com 160 funcionários divididos entre seis instalações: 2 escritórios (um em Tóquio e outro em Kyoto), 3 estúdios de animação (Studio 1, Studio 2 e Animation Do!) e uma loja que vende produtos relacionados aos animes feitos pela empresa.

O incêndio ocorreu no Studio 1

Uma peculiaridade da Kyoto Animation está no fato de que ela possui seu próprio selo editoral, a KA Esuma Bunko, que publica light novels que são posteriormente adaptadas pelo estúdio para o formato de animação. Agindo assim, a KyoAni reduz sua dependência dos comitês de produção e tem mais liberdade criativa para decidir em quais projetos quer trabalhar, além de acabar virando dona da propriedade intelectual oriunda dos projetos em que trabalha, o que permite ao estúdio ganhar dinheiro com royalties relativos a merchandising e licenciamentos (que é de onde vem o grosso da arrecadação financeira com animação).

Dois exemplos do sucesso dessa estratégia são Free! Iwatobi Swim Club e Violet Evergaden. Free! é uma animação original, que serve de continuação para uma light novel publicada anteriormente pela KA, já Violet Evergarden é uma adaptação direta de uma light novel publicada também pela KA.

Outra característica importante da KyoAni é a busca por inovação na hora de encontrar novas oportunidades de negócios. Um exemplo disso está no fato dela ter sido um dos primeiros estúdios japoneses a adaptar visual novels para o formato de animação, tendo sido responsável pela adaptação de obras como Air, Kanon e Clannad.

Essa busca tanto pela independência criativa como pela independência em termos de negócios também ajudou a Kyoto Animation a conseguir segurança financeira o suficiente para poder contratar pessoas como empregados de fato, com direito a benefícios como licença maternidade, por exemplo. Enquanto isso, em outras partes da indústria é extremamente comum animadores serem contratados como freelancers e terem que cumprir com várias dezenas de horas de trabalho sem parar para descansar.

Além disso, a Kyoto Animation possui sua própria escola de animação, a Kyoto Animation Professional Training School, e os próprios funcionários da KyoAni lecionam nela.

Algumas pessoas de renome da indústria de animes que passaram pela Kyoto Animation

Hiroko Utsumi

Hiroko Utsumi se destacou na KyoAni trabalhando como animadora em animes como Suzumiya Haruhi no Yuuutsu e K-On!. Em seguida, foi convidada para dirigir a série Free! Iwatobi Swim Club, um dos maiores sucessos da empresa. Posteriormente, ela deixou a KyoAni e foi para o Studio MAPPA, onde dirigiu Banana Fish.

Naoko Yamada

Naoko Yamada entrou para a KyoAni como animadora e, após fazer um ótimo trabalho dirigindo um dos episódios de Clannad, ela foi escolhida para dirigir uma das obras mais famosas da KyoAni: K-On!. Posteriormente, ela dirigiu Tamako Market e, mais recentemente, a adaptação de Koe no Katachi (lançado no Brasil como A Voz do Silêncio). Naoko trabalha na KyoAni até hoje.

Yasuhiro Takemoto

Yasuhiro Takemoto entrou na empresa em 1996, logo após se formar, e não demorou muito para que ele se tornasse um funcionário importante lá, a ponto de ter sido escolhido para dirigir Full Metal Panic? Fumoffu, o primeiro anime inteiramente produzido pela KyoAni. Mais recentemente, ele também dirigiu as adaptações de Amagi Brilliant Park e Kobayashi-san Chi no Meidoragon.

Até a data de publicação deste artigo, Yasuhiro Takemoto consta como desaparecido desde o dia 18 de julho.

As perdas inestimáveis e a comoção mundial

A verdade é que, neste momento, é difícil estimar o tamanho exato do prejuízo sofrido pela Kyoto Animation. Mas uma coisa é certa: suas consequências com certeza serão sentidas ao longo dos próximos anos por toda a indústria de anime.

A KyoAni perdeu, de uma vez só, um quinto dos seus funcionários, e esse número pode aumentar ainda mais, já que não se sabe quantos dos sobreviventes terão condições de voltar a trabalhar no estúdio. Além disso, Hideaki Hatta disse em entrevista coletiva que todo o material relativo a produções feitas anteriormente pela empresa que estava no Studio 1 foi completamente destruído.

A tragédia da KyoAni causou comoção internacional, e logo os fãs se mobilizaram para ajudar o estúdio: imediatamente a hashtag #PrayForKyoani viralizou nas redes sociais.

A Sentai Filmworks, empresa americana que distribui muitos dos animes feitos pela KyoAni nos Estados Unidos, criou uma campanha de crowdfunding para ajudar o estúdio. A campanha arrecadou mais do que o dobro da sua meta inicial e atualmente já passou dos 2 milhões de dólares.

Esperança é um tema central de várias das produções da Kyoto Animation. E agora, ela é necessário mais do que nunca. Precisamos acreditar que a KyoAni ainda terá muitas histórias maravilhosas para contar.

Referências: Kyoto Animation, Sakuga Booru.

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