Construção de mundo é um dos aspectos mais importantes de qualquer história, já que o ambiente no qual uma obra se desenrola pode ter um impacto imenso não só na progressão da narrativa, mas também em todos os demais elementos do trabalho. Em particular os personagens podem ser afetados por seus universos, de forma interna e externa, pois os aspectos políticos, históricos e literários de um mundo podem influenciar drasticamente seus papeis no enredo, e também a maneira como nós os vemos. E duas obras que exemplificam bem essa questão são o anime Takarajima, de 1978, e o longa-metragem Planeta do Tesouro, de 2002.

Essas histórias são adaptações do mesmo livro, A ilha do tesouro, escrito em 1882 por Robert Louis Stevenson, mas uma se passa na Europa do século XIX e a outra é uma novela espacial. As diferenças parecem evidentes, contudo a alteração estética não afeta a narrativa de forma tão significativa. No fim, ambas as obras são sobre explorar ilhas desconhecidas e enfrentar piratas para conseguir um tesouro, embora muito da estética do original se mantenha na adaptação da Disney, só que agora as armas disparam lasers e há propulsores a jato nos navios. Entretanto, a mudança de ambiente causou enormes alterações nos dois personagens mais importantes da obra, o protagonista Jim Hawkins e o antagonista Long John Silver. 

Agora, para dizer a verdade, desde à primeira menção de Long John Silver na carta do escudeiro de Trelawey, fui tomado pelo medo de que ele poderia ser o marinheiro de uma perna que eu havia observado por tanto tempo no velho ” Benbow “. Mas com apenas uma olhada foi o bastante. Eu havia visto o capitão, o cachorro negro e o cego Pew, e eu achava que sabia como um pirata era – uma criatura muito diferente desse limpo e bem-humorado senhorio.

Jim Hawkins. Capítulo 7, página 62

Dentre todas as diferenças visuais entre as duas versões, o design de Silver é uma das mais gritantes e fascinantes. Em Takarajima, o pirata é um homem forte, com longos cabelos loiros e olhos azuis e uma voz bem mais firme e galante que a dos demais piratas, o que é bem fiel à sua versão literária. A razão por trás dessas características é que Silver foi criado para ser um contraponto ao estereótipo do pirata mal-educado e com aparência vil para ser mais próxima a representação do homem ideal de sua época. Esse é o motivo pelo qual o antagonista, apesar de não ter uma perna, possui várias cenas de luta, para que assim o anime demonstre que mesmo com sua deficiência física, além de ser baleado e contaminado com malária, tudo serve ao mesmo propósito: demonstrar a absoluta força de vontade e determinação de Silver.

Em contraste, o Silver da Disney não possui várias das características de sua outra versão porque a mudança do cenário tornaria ilógico a imagem do herói romântico ser um homem europeu, visto que não há como prever como séculos de exploração espacial e contato com inúmeras raças de aliens afetaria a percepção humana. Isso causou diversas alterações em tudo que envolve o personagem, desde sua aparência, que agora é de um homem gordo, careca e de pele escura, com próteses robóticas que ao invés de problemas, são usadas como armas pelo ciborgue. Mas mesmo essas mudanças tão radicais não se comparam a maior alteração de todas: sua relação com Jim Hawkins.

Nas duas versões, Jim é um jovem que perdeu o pai e que tenta suprir essa perda por ver Silver como uma nova figura paterna. Porém apesar de similares, as relações entre esses personagens se tornam drasticamente diferentes devido ao caráter de seus universos. 

No anime, a relação entre Jim e Silver é majoritariamente uma de respeito e admiração devido a Silver ser o homem que Jim aspirava a se tornar, devido à época e também pelo respeito que nutria por seu pai, que era um marinheiro. Já no filme, Silver não é uma figura nobre, por isso seu vínculo com o protagonista é muito mais emocionalmente mútuo do que o da outra versão. Essa diferença também gerou mudanças na relação de Jim com seu pai, que diferente do anime, não é um homem heroico ou uma figura presente, mas sim alguém que nunca deu a atenção que o filho almejava e que abandonou sua família sem ao menos se despedir. 

Os diferentes retratos de seu pai tornam Jim um personagem muito diferente em cada uma das versões. No filme, isso faz com que ele seja um jovem rebelde, indisciplinado e sem perspectiva do futuro. Enquanto que no anime o protagonista aspira a ser como o pai, um nobre marinheiro que vive várias aventuras pelos mares. E essa diferença impacta na formação dos laços de cada um com seu próprio Silver: em Takarajima, Silver salva o protagonista várias vezes e enfrenta diversos perigos que demostram sua força, enquanto no filme o antagonista apenas protege e instrui Jim em suas tarefas domésticas. E são essas pequenas demonstrações de afeto que criam um laço mais próximo entre os dois. 

Essas diferenças de abordagem aos personagens são cada vez mais notórias durante as obras, em especial em seus finais. No livro, Silver apenas foge com parte do tesouro à noite, e Jim nunca tem a chance de se despedir ou ver o pirata pela última vez. Enquanto que nas duas adaptações, esses dois têm a chance de se despedirem propriamente.  

Em Planeta do Tesouro, Jim deixa com que Silver fuja, e o pirata retribui o ato de generosidade ao entregar o pouco que conseguiu roubar do tesouro para que o protagonista possa ter uma vida melhor. Enquanto que em Takarajima, Silver foge com o tesouro assim como no livro, mas ele e Jim se reencontram. Porém ao contrário da calorosa despedida da Disney, essa reunião é um tanto quanto fria: Long John finge não conhecer seu velho amigo, e os dois apenas se olham uma última vez. E assim o anime acaba. 

A razão por essas cenas serem tematicamente dissonantes também se encontra na diferença de mundo entre as duas versões. No anime, por Silver ser a representação do herói romântico dá época, seu personagem já tem seu arquétipo definido desde sua primeira aparição. O que, junto ao papel como antagonista, já cria um personagem interessante pelo contraste entre o que ele aparenta e o que representa na obra. Por isso os escritores não precisaram se preocupar em criar um arco para Long John, porque ele já é um personagem conceptualmente tridimensional.

Enquanto que na versão da Disney o ciborgue não tem a mesma base para seu personagem – o que obrigou os escritores a trabalharem no personagem baseado apenas em sua relação com Jim. E esse fator junto do tempo reduzido de um longa-metragem em relação a um livro e uma série animada contribuíram para que o pirata, ao contrário de suas outras versões, tivesse um arco de personagem, para que assim sua história suprisse pela perda de significado da adaptação e continuasse tematicamente amarrada com o filme.

Há duas cenas presentes em ambas versões que demonstram bem o meu ponto: o primeiro encontro de Jim e Silver como inimigos e o ataque solo de Jim ao navio Hispaniola. No anime, o protagonista confronta Long John com uma pistola e demanda sua rendição. E mesmo perante a esse cenário, o pirata provoca o jovem armado e lhe dá as costas, pois sabia que o garoto não tinha sangue frio para atirar em alguém.

E quando os dois personagens principais se encontram no navio em meio a uma tempestade, Silver não tenta persuadir Jim nem usa de nenhum jogo mental ou ameaça. Ele apenas dá as instruções corretas para que ambos saiam vivos daquela situação e nada mais.

Escute, Jim, quando um homem decide fazer algo, o fato dele não ter duas pernas não muda nada. Quando ponho minha mente em algo, eu sempre vou até o fim, estando certo ou errado. Essa é a minha filosofia.

John Silver.

Já na versão da Disney, Silver não estava presente no retorno ao Hispaniola. O que Jim encontra lá é outro pirata, que o filme já havia caracterizado como puramente vil e maligno, para assim mostrar que o ciborgue ainda possuía alguma humanidade em comparação. Enquanto que, no primeiro reencontro, é Silver que aponta uma arma para Jim, embora desista de puxar o gatilho no último minuto devido a seus sentimentos pelo garoto.

São cenas como essas que exemplificam bem a diferença entre as duas versões do personagem e também me fazem preferir o anime. Por que creio que apenas essa versão pegou o que fazia John Silver um ótimo personagem: o fato dele ser o homem ideal e também o maior dos vilões ao mesmo tempo. 

Não existe nenhum arco de personagem que faça o personagem deixar de aplicar tortura psicológica em uma criança de 13 anos para depois se tornar um homem admirável. Pois John Silver sempre foi um homem admirável, ele é a representação máxima dos ideais estoicos que formavam os heróis e da crueldade extrema que caracterizava os vilões. Essas características faziam dele um grande líder, um terrível inimigo e, acima de tudo, um homem que impõe respeito e medo no coração de todos. 

Postcard memories são as artes que fecham os episódios dos animes ou marcam momentos importantes.

São essas diferenças que contribuem para que os finais de cada versão sejam tão diferentes em termos de execução e temática, apesar de serem muito similares em conceito. Porque enquanto o Jim de O Planeta do Tesouro aceita a partida do Silver, e isso serve de catarse para seus problemas com abandono, o Jim do anime passa por uma resolução bem diferente.

Pois mesmo depois de adulto, Jim ainda admirava o velho pirata apesar de ter presenciado o quão horrível era sua índole. Mas ao crescer e se tornar um marinheiro como seu pai, manter o contato com seus companheiros de  aventura e estar prestes a constituir família com a mulher que ama, ao ver que Silver em contraste se tornou um velho que passa suas noites vadiando em bares e cuja única companhia é seu papagaio de estimação, Jim finalmente compreende a situação.

Silver, por mais que ainda fosse um homem forte e orgulhoso, estava em uma situação lamentável devido a sua ambição, algo que o próprio personagem parecia reconhecer ao impedir o protagonista de se aproximar. E, com esse final, Jim aprende que mesmo o admirando, Silver não é o ideal que ele almeja, e assim segue para formar uma vida guiada pelas memórias de seu pai, alcançando assim uma conclusão tematicamente oposta ao Jim do longa.

Se tem uma grande lição que tiro dessa comparação é que cada elemento de uma história deve ser analisado por como coincide com todas as demais características de uma obra, e não apenas por si próprio. É verdade que a mudança de cenário é algo gritante quando se compara O Planeta do Tesouro com a obra original ou qualquer outra de suas adaptações. Porém, o mundo de uma história não funciona apenas como um cenário ou um elemento com o qual os personagens podem interagir; o mundo sempre é um aspecto fundamental para a construção dos personagens e temas e vice-versa. Pois uma obra de arte não é apenas uma coletânea de elementos, mas também a ressonância desses elementos para criar uma história e experiência mais ricas.

No fim, o mar é a única constante na vida do pirata.