Nota da editora: Esta resenha contém spoilers, o que pode despertar seu interesse pela obra ou estragar a experiência, dependendo de como você aceita essas informações. Leia por sua própria conta e risco.

Dentro da indústria dos mangás sempre temos novos nomes que acabam por fazer um grande sucesso na indústria. No mercado dos shonens, em particular, um nome que se destacou nos últimos anos foi Tatsuki Fujimoto, autor de Chainsaw Man, mangá de grande sucesso que vendeu cerca de 9 milhões de cópias desde seu lançamento, em 2018, e que já teve até adaptação para anime anunciada pelo estúdio Mappa. Pode-se até dizer que Chainsaw Man foi a escada que levou Fujimoto a se tornar um dos grandes nomes da Shonen Jump hoje.

Porém, o curioso sobre a carreira desse mangaká é ver como muito do que fez Chainsaw Man famoso, na verdade, já existia em todos os trabalhos do autor: seu senso de humor único, sua paixão por obras ocidentais (como Star Wars e O Massacre da Serra Elétrica) e, principalmente, seu fascínio sobre relações interpessoais. E nenhuma obra demonstra melhor o apreço de Fujimoto por esse tema do que seu primeiro mangá longo, Fire Punch.

Na história acompanhamos Agni, um garoto que, por viver em um mundo pós-apocalíptico, não sofre muita da pressão social que conhecemos, mas devido à presença de sua irmã Luna, Agni escolhe viver sob a máscara de irmão mais velho ideal — o protetor que sacrifica seu bem estar em prol da segurança de sua família e pelo bem-estar dos membros do vilarejo que os acolheram. Agni possui poderes de regeneração incríveis e, graças a isso, nosso protagonista decide usar de sua própria carne para alimentar a todos em tempos de escassez de comida, e mesmo que alguns prefiram morrer a recorrer ao canibalismo, Agni não se importa com as implicações morais de seus atos.

Porém, quando sua vida é destruída, Agni se encontra em um dilema existencial. Pois sem as pessoas que ele protegia, em particular sua irmã, a vida não teria mais sentido. Ao perder tudo que lhe era importante, Agni também perde sua identidade, o que o leva a contemplar a morte como uma saída de sua dor. Contudo, algo bem mais interessante aguardava o personagem — Agni, no último vislumbre que tem da irmã, vivencia uma catarse e, em vez de abandonar sua razão de viver, transforma o amor que sentia por Luna em ódio por aqueles que os separaram. Agni continua a viver por Luna, mas dessa vez com as chamas que lhe tiraram tudo espalhadas por seu corpo. É quando surge a nova máscara de Agni: a de vingador.

Mesmo depois da morte de sua irmã, todas as ações do protagonista são um reflexo de seus sentimentos por ela. Ele suporta as chamas para vingar sua irmã e ajuda os fracos mesmo quando isso só lhe causa prejuízo por causa da vida que tinha antigamente. E são essas motivações opostas que o fazem crescer como pessoa, porque, com elas, Agni percebe que a vida não é algo tão simples para que possa ignorar a existência de outras pessoas e ser afetado por elas.

No mundo de Fire Punch, aqueles que possuem algum tipo de habilidade especial, como a regeneração de Agni ou a pirotecnia de Doma — o homem que trouxe a tragédia para nosso protagonista — são chamados de abençoados. Esse nome foi criado pela elite de Behemdorg, a única cidade desse mundo inóspito que tem em tamanho o que tem em relevância temática.

Behemdorg é fundada sobre dois pilares, a escravidão e a doutrinação. Seus moradores são educados para acreditarem serem “os escolhidos”, pessoas que deverão viver em prol de um benevolente rei por serem superiores às demais — por isso é ensinado que práticas como acorrentar abençoados a uma vida de servidão é o correto pois eles não têm valor — os abençoados não passam de combustível para o bem-estar dos escolhidos.

Com o decorrer da história é confirmado que o rei de Behemdorg não passa de uma lenda criada para que as pessoas tenham algo pelo que viver e, assim, continuar trabalhando em prol da civilização. Mas pela permanência dessa manipulação, tudo de mais hediondo era permitido, como estupros, dando assim aos cidadãos de Behemdorg uma vida de utilidade e cega ao questionamento.

Em contraste com seus opressores, os escravos não possuíam nenhum significado em suas vidas e por isso passavam seus dias a clamar pela morte. Contudo, ao ouvirem sobre Agni, um indivíduo envolto em chamas que lutava pelo bem dos necessitados, os escravos ganham um sentido para suas vidas, e agora, assim como os cidadãos de Behemdorg viviam por seu rei, os escravos tinham esperança pela existência de Agni. Agora, da mesma forma que seus opressores, eles preenchem seu vazio existencial pela crença em um homem que supostamente se importa com eles.

Um ponto importante para o desenvolvimento de Agni como pessoa é sua relação com Togata, que viveu por mais de trezentos anos e dedica toda sua vida ao cinema. Ela entra em contato com Agni após ouvir histórias sobre o rapaz e decide que o homem flamejante seria um protagonista bom o suficiente para que ela deixasse de ser uma simples cinéfila e se tornasse uma diretora.

Togata não tem outro objetivo além de fazer o melhor filme possível — ela filma os momentos de maior agonia de Agni para criar um herói trágico mais convincente — ajuda Behemdorg para que Agni tenha uma luta mais empolgante para o clímax de sua obra e, enquanto isso acontece, Agni apenas aceita as escolhas da diretora. Ele assume o papel de protagonista porque, mesmo sem entender a situação, percebe que Togata tem a força e conhecimento necessários para ajudar a alcançar sua vingança.

O interessante sobre Agni é como ele sempre cria novos rótulos para si e sempre os contesta logo depois. No começo de sua jornada, Agni decide que não se importará com ninguém e que única coisa que vale a pena era a vingança — entretanto, quando chega o momento em que pode concretizar sua vingança, ele decide que o principal é ajudar aqueles que assim como ele também estão sofrendo, mesmo que isso vá contra sua nova razão de viver.

Com essas características, Agni se torna não só a força motora por trás da obra como também seu principal pilar e ponto de vista ideológico, tornando Fire Punch uma jornada onde diferentes pessoas vão se cruzar e obstruir o caminho uns dos outros, tudo em busca da mesma coisa: o sentido de viver nesse mundo perdido.

Agni retorna à posição de protetor, ele mais uma vez se mutila para que as pessoas a sua volta tenham o que comer e, devido às ações de Agni, a convicção dos escravos mais uma vez se reafirma e eles passam a ver o protagonista não apenas como um herói, mas como um deus protetor dos fracos.

Apesar da situação não ocorrer como esperado, Togata continua ao lado de Agni por ele ainda ser a pessoa mais interessante para protagonizar seu filme. Togata tira proveito da religião criada em torno de Agni e a molda a bel-prazer. A diretora sempre está no controle, e faz jus ao seu título, coordena todos os atores para o espetáculo que mais a satisfaça, independente de suas vontades e do cenário, sempre com uma aura de superioridade.

Togata, assim como Agni, vestia uma máscara, a da diretora. Todavia, quando sua disforia de gênero é revelada, a diretora abandona tudo que havia criado ao lado de Agni sem hesitar, pois por baixo de seu ar de superioridade estava uma pessoa que desejava moldar a realidade a sua volta, mas era incapaz de moldar seu exterior para refletir seu verdadeiro eu.

Agni vai em busca de Togata e, apesar de não conseguir entender a situação da diretora nem de convencê-la de que havia cometido um erro, os dois se reconciliam. Agni ganhou fama ao salvar os escravos, mas é pela sua interação com Togata que mostra o quanto ele cresceu como pessoa. Por exercer mais uma vez seu papel de protetor não só com seu corpo, mas também com suas palavras, Agni finalmente criou uma conexão real, e agora enxergava Togata não por um rótulo ou uma responsabilidade, mas como uma pessoa, alguém que ele não entende, mas não quer perder.

Agni sempre viveu em prol de outras pessoas e nunca por si mesmo, sempre colocou a máscara que precisava para fazer seus entes queridos felizes, todavia, enquanto ele ainda nutria alguma felicidade em seu trabalho como protetor, dessa vez nem isso ele possui.

Agni comia sem sentir gosto, fechava seus olhos sem conseguir dormir, e não importa o quanto se cortava, nunca morria — sua vida era um poço desprovido de emoção, por isso era tão mais fácil para Agni viver sob uma máscara: seja a do irmão, seja a de um assassino. Mais que viver, ele apenas existia, sem nunca experimentar a alegria de se relacionar ou mesmo a dor de quando seu corpo estava envolto por chamas.

Eventualmente, o destino prega mais uma peça em nosso protagonista e o separa de sua irmã novamente, Agni perde a pessoa que mais amava e abandona todos os outros que se dedicou a proteger. A vida de Agni mais uma vez se mostra um ciclo de perda e solidão, sempre em direção à loucura quando sua vida é afetada, pois, ao se dedicar inteiramente a outras pessoas, Agni esquece de se preocupar consigo mesmo, o que ironicamente causa o fim dos seus relacionamentos.

Nosso protagonista parte em busca de vingança, dessa vez contra os próprios escravos que ele havia libertado, escravos que por viverem em por ainda enxergarem Agni como um salvador, decidem eliminar a mulher que desviou o herói de seu caminho. Porém, ao verem Agni, seus fiéis percebem que ele não era o messias que idealizavam, suas ações não eram de um salvador, mas de um homem louco. E com a morte da religião, o vazio na alma dos devotos se tornou uma nítida realidade.

Agni nunca conseguiu criar uma identidade própria, então toda sua personalidade se resume a uma coletânea de máscaras que ele adota para diferentes situações, ele vive para ser o que precisam que ele seja ao invés de se desenvolver como pessoa. E sem se enxergar como um ser complexo com seus próprios gostos e defeitos, Agni se condenou a cometer os mesmos erros, sem nunca progredir ou experimentar coisas novas por si mesmo. Ele se condena a um estado eterno de sofrimento e estagnação, incapaz de ser mais do que uma máscara vazia, alguém que não conseguiu progredir como um ser social devido a sua falta de amor próprio e interesse.