sábado, 26 de setembro de 2020

[Artigo] Os encontros e desencontros do CGI nos animes

O uso de CGI está virando a norma nos animes, mas você sabe onde e por que ela é utilizada?

Ah, animes em CGI. Amor de alguns e ódio de muitos, os fãs de anime têm um pé atrás universal quando descobrem que sua obra querida vai receber sua tão esperada adaptação para anime em CGI.

Mas vamos começar do começo.

Para quem não conhece o termo ou não sabe exatamente o que significa, CGI é uma sigla usada para se referir ao termo Computer Generated Imagery (imagens geradas por computador), que muitas pessoas chamam de maneira coloquial de animação 3D. Não que chamar de 3D esteja errado, mas não está necessariamente certo.

Mas em relação a isso, a pergunta que muita gente tem na cabeça é: por que usar animação em CGI para fazer animes? E a resposta, como você bem esperava, é tão simples quanto fazer o imposto de renda.

A CGI é usada em animes por vários motivos e modos diferentes dependendo do estúdio que está realizando a animação, mas sempre existiu um tipo de padrão para quando se usar. Desde cortar custos para animação de multidões ou personagens de background, passando por cenas que dariam muito trabalho para serem animadas de maneira tradicional, até o uso inteligente da CGI para animar objetos estáticos como prédios e outras estruturas ou objetos mecânicos, ou seja, que não possuam forma orgânica.

O começo

Durante os anos iniciais do uso de CGI na indústria dos animes, esta técnica foi usada de algumas formas diferentes, mas principalmente para criação de objetos estáticos, como prédios, ou objetos mecânicos, como carros ou robôs. Logo, não é à toa que o primeiro uso mainstream de CGI tenha acontecido em um anime de corrida que ainda hoje é relevante: Initial D (Studio Comet), de 1998.

Queria meu PS1 de volta…

Claro, se você assistir a alguma cena solta do primeiro anime hoje em dia é provável que a ache parecida com uma cutscene de um jogo de PS1, mas embora seja uma obra datada, visto que tem mais de 20 anos da transmissão original, se você parar para ver um episódio inteiro, a CGI não quebra a imersão nem os padrões de animação da série.

Muitos animes que vieram depois de Initial D seguiram os mesmos passos. Ghost in the Shell: Stand Alone Complex (Production I.G.), de 2002, fez ótimo uso da CGI em seus designs futuristas, contribuindo imensamente no campo e criando um time muito talentoso que participa até hoje de animações em CGI por toda a indústria, em especial no gênero mecha.

Além deste usos, no começo dos anos 2000 grandes produções se dedicaram a criar obras usando CGI como meio principal de animação, criando desde obras que tentaram encapsular o “estilo anime”, como o primeiro filme de Appleseed (Digital Frontier), lançado em 2004, e a obras com estilo mais “ocidental”, como Final Fantasy: The Spirit Within (Square Enix), lançado em 2001.

Entretanto, mesmo com grandes produções, durante os anos 2000 o uso de CGI nos animes se resumiu a obras com grande orçamento, como a franquia Final Fantasy, animações de background ou auxílio em cenas com rotoscopia e animes infantis em que a dita animação de qualidade não era exatamente necessária.

Isso passou a mudar com a virada da década, quando os estúdios ganharam um pouco mais de confiança com a CGI e começaram a tentar emplacar obras animadas inteiramente neste método, sendo uma das primeiras a adaptação Aoki Hagane no Arpeggio (SANZIGEN), de 2013, que fez excelente uso de CGI nos modelos dos navios e submarinos do anime, mas pecou no modo como animou os personagens, e foi o começo da divisão da comunidade entre os fãs de anime que tinham grandes esperanças para animação em CGI (como eu), e aqueles que a consideravam a pior coisa que aconteceu aos animes.

Fui ver pelos navios, fiquei pelo… plot.

Não demorou muito para as coisas começarem a mudar, já quem em 2014 o anime Sidonia no Kishi (Polygon Pictures) estreou e ganhou grandes níveis de popularidade entre toda a comunidade, fazendo com que mais pessoas começassem a não odiar CGI. Claro, muitas das críticas em relação a Arpeggio continuaram em Sidonia, sendo as maiores delas o modo como os personagens não possuíam expressões faciais ou como eles se moviam de maneira muito rígida.

Logo em 2015 a Polygon Pictures atacou de novo com o lançamento de Ajin, onde a animação dos personagens teve uma melhora e a animação dos próprios ajins foi realizada com grande sucesso, dando aos fãs de CGI a esperança de que obras incríveis poderiam vir em breve. No mesmo período, mas em outro continente, RWBY (Rooster Teeth), que havia sido criada por Monty Oum e estreado em 2013, estava chegando ao seu clímax com uma animação cada vez mais refinada e revigorando expectativas de fãs ocidentais para animações no estilo anime.

O pesadelo

Entretanto, tudo que é bom dura pouco.

Embora Ajin estivesse ganhando mais conteúdo no começo de 2016, qualquer relevância positiva que animações em CGI pudessem conseguir foi momentaneamente afogada em um mar de péssimas decisões criativas com o lançamento de Berserk (Milepensee; GEMBA). É impossível saber o que se passou na cabeça do estúdio durante a produção de Berserk 2016 (se é que se passou alguma coisa), mas a animação que conseguiu ser pior do que a do primeiro Initial D e com efeitos sonoros de frigideira, a nova adaptação do clássico foi um dos maiores desserviços já feitos à comunidade de animes.

Sim, isso é a animação oficial.

Durante a exibição de Berserk muitos fãs de animes ridicularizaram a CGI e apontaram o dedo para mostrar por que ela nunca seria mainstream, enquanto muitos fãs de CGI choraram abraçando os joelhos e se perguntaram se era assim que o sonho de uma animação completamente em CGI de qualidade morreria.

Renascença?

Com o desastre de Berserk 2016 ainda fresco na mente do público, animes como Bubuki Buranki (SANZIGEN) falhando em entregar um produto que pudesse apagar esse pesadelo e Kemono Friends (Yaoyorozu) do começo de 2017 servindo de chacota para o público ocidental, tanto expectativas quanto esperanças com novos animes em CGI estavam mais baixas que meu saldo bancário.

Entretanto, em outubro de 2017, a obra que os entusiastas de CGI esperaram por quase vinte anos finalmente apareceu.

Houseki no Kuni (Orange) foi o anime que colocou a CGI de volta na cena, só que desta vez pelos motivos certos.

Indo na contramão do modo em que a maioria dos estúdios de animes estavam fazendo com CGI, o estúdio Orange decidiu realizar toda a produção do anime em CGI, usando animação tradicional em background, closes e expressões faciais, pegando emprestado até mesmo algumas técnicas da Disney para deixar as animação mais vivas. Isso sem falar da criação de um índice de refração para o cabelo de cada uma das personagens, já que como todas são gemas, o único modo de diferenciação entre as personagens seria pelo cabelo e voz.

Na mesma época também estreou o anime Inuyashiki (MAPPA), que mostrou que até mesmo a animação em CGI “tradicional dos animes” podia ser bem feita, com sequencias de ação bem animadas e cel shading que não parecia fora de lugar.

Além disso, novas obras continuaram o legado de animações em CGI de 2017. Beastars, de 2019, continuou o ótimo trabalho do estúdio Orange nas animações estilizadas com obras que não necessariamente se beneficiariam de animação tradicional, e Dorohedoro (MAPPA), de 2020, mostrou como um cel shading diferenciado e traceamento sobre os modelos 3D dos personagens poderiam passar a sensação de animação tradicional sem minimizar a CGI utilizada no anime.

Resta saber agora o que o futuro nos aguarda no mundo das animações em CGI. Estamos à espera de um novo Berserk 2016 para acabar com nossos sonhos e esperanças ou de um novo marco em CGI de qualidade como Houseki no Kuni? Tudo que podemos fazer é esperar e torcer para que os estúdios japoneses finalmente tenham aprendido como tirar o máximo proveito da CGI nos animes.

Nós do AniNerd convidamos você que está nos lendo a descobrir tudo que interessante no mundo dos animes. Vem ser nerd de anime você também!

Fã de yuri e garotas fofas. Hater de Evangelion e gore. Meus gostos são claramente superiores e minhas opiniões valem mais porque me formei em RTVI. Serei seu guia pela miríade de animes desconhecidos, é um prazer.

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